Recentemente, tive um desafio profissional que me rendeu algumas reflexões. Hoje estou sentindo dor no meu tornozelo esquerdo: foi um probleminha de adaptação aos sapatos do meu pai. Queria estar bem vestido. Era uma empresa que tratava tudo com muita seriedade. Mas as aulas eram de Português e, apesar dos 15 anos no ensino, atuava dando aulas de inglês. Entre os danos, está meu calcanhar. Mas houveram outras situações pouco agradáveis.
Não gostei de ter que andar a avenida da praia e chegar num prédio de luxo, com segurança remota na portaria e reconhecimento facial. No apartamento, fui bem recebido, mas não pude ver a real dinâmica do casal que me contratou. Ela, que morou no Nepal durante muitos anos e se mudou para a Holanda, ia casar com um brasileiro. Aproveitou as praias daqui, mas não quero dizer o Guarujá: viajou, novamente, para a Bahia. Julgamos.
Se eu tivesse uma viagem para fazer, não pensaria nos meus estudos, principalmente no contexto remoto. Mas era para socializar com amigos e família. Um belo dia, estava eu explicando o contexto de frases em situações do dia-a-dia (uma aula “Instagram demais pro meu gosto”), quando sinto um cheiro. Os pais entraram no apartamento, e começaram a cozinhar um polvo. Não sei onde compraram. A última aula foi aiversário dela. Não vi o bolo.
No geral foi tudo bem. Mas um dia, estava precisando de dinheiro. Com a dor me incomodando, pensei: “poderia falar sobre o material que preparei, e quem sabe eles possam pagar na hora”. A empresa não me forneceu nenhum material, até o dia antes da primeira aula, quando já havia preparado a metade. Pra falar a verdade, nem olhei. Confiei nos meus estudos da faculdade, a experiência acumulada (inclusive como autor de livro didático) e “mandei brasa”. Fui questionado, ao pedir o acréscimo, e citaram cláusulas do contrato.
O material poderia valer mais do que 50 reais. Alguns livros chegam a custar quase 200, o que fiz questão de mostrar em um site de uma livraria. Após isso, ouvi: “se você sentir que algo está lhe impedindo de cumprir com a sua função, ficamos felizes em ajudar”. Eles me deram 50 reais, mas disseram que ficava uma má-impressão sobre a empresa, e ao entregar a nota, o rapaz disse: “isso não aconteceu”. Saí, e caiu uma chuva torrencial (aquela que inundou São Sebastião). Comprei um cigarro para ter troco de ônibus. Não andei.
Ao viajar, a aluna passou a fazer aulas remotas. Brincamos com filtros do Google Meet (ela tem 30 anos, mas gostou de se transformar em peixe), descrevemos pessoas e situações, mas ao fim das lições, parecia que ela não tinha memorizado a diferença entre “ser” e “estar”, que eu expliquei como sendo o verbo “to be”, mas um “permanente” e outro “temporário”. Ela melhorou na leitura, e conseguia identificar palavras chave e traduzir. Isso foi bom, mas todos aprendemos que não é uma boa ideia contar com tradução.
E se as aulas tivessem sido realmente todas em Português? Em uma situação, olhamos o perfil tirado da Wikipedia da estrela da TV Paola Carossela. Um dos adjetivos era “empresária”. Eu perguntei o que vinha à cabeça dela, e ouvi “ela imita?” (“impressionist”). O noivo pegou exatamente essa parte, enquanto passava na sala; deu risada, e mandou um beijo para a aluna. Mas a questão da tradução melhorou a aptidão dela. Só tem o detalhe de nem sempre as coisas darem certo. Exploramos muito mais, de conjugações a informalidade e pronúncia.
Nunca imaginei que uma aula de Português poderia ser dada começando com “tô”. Frases como “eu tô com sono” eram de repente parte do nosso repertório; já na pronúncia de “é”, como em “ele é muito simpático”, eram confundidas num modelo que misturava a língua mãe com o sotaque indiano e o que a aluna aprendeu na Holanda. Ao invés de “é”, ela sempre falava “ê”. Discutimos até os acentos, imagine? E certo dia, ela me mostrou a escrita da língua dela, e aquilo me impressionou.
Mas pra tudo arranjamos soluções. Por exemplo, a forma de explicar o “é” foi falar que é um som que se produz com a boca ligeiramente mais aberta. Ela entendeu, mas daí a pedir para a sua aluna abrir a boca é uma viagemzinha e precisamos ter certo cuidado. Eu tive; inclusive, acho que fui bastante educado, mas as pequenas coisas hoje me incomodam. Ela perguntou, nas primeiras aulas, se eu aceitava água ou café. Eu aceitei os dois, mas porque ela insistiu. O problema é que virou tradição. Até que um dia eu falei que iam descontar o café do meu salário…
Resumindo, acho que não dá pra fazer 10 aulas de Português básico, e chegar na décima falando do passado. São muitas formas. O Português exige muita prática e estudo. Os dois falharam: eu, ao não deixar explícito que ela teria lição de casa; ela, por não seguir as sugestões; mas também a escola, por não ter materiais disponíveis nem sistema de avaliação.
Isso tudo me leva a pensar que aprender uma terceira língua deve ser desafiador. Era esse o caso da minha aluna, e eu fiz o possível para ajudá-la. Recomendei lugares para visitar, sites, mandei links, fiz até uma playlist. Ela não gostou das músicas, tinha restaurantes melhores para visitar e não gostava de ler na internet. Mas fiz a minha parte. O que me preocupa é saber que, se o inglês vai ser a segunda língua definitiva para boa parte do mundo, temos muito o que melhorar na terceira, se queremos ter uma alternativa.