Twitter: um copo de água com açúcar à força

Todos e todas temos que fazer coisas a contragosto. Não por isso, são forçadas. É mero paladar. No entanto, cabe ir um pouco mais fundo do que o trocadilho, se se quer alcançar alguma posição de relevância. A palavra é a medida de toda a internet que conhecemos hoje, e esta é o medidor de tudo, com exceção dos medidores — que são robôs assexuados. É claro, não é esse o texto que você gostaria de ler; existe uma diferença muito grande entre um robô e um comando de sistema, uma base de dados, um servidor ou uma operadora. Falemos um pouco do último caso.

“Maria usou calcinha preta e o suor não se enxergava”, diz um enunciado de uma questão de Português do Ensino Fundamental. Em seguida, a pergunta: “o sujeito é ativo ou passivo?” — hoje, não podemos perguntar isso. Não podemos nem perguntar quem é Maria, pois o nome é tão comum (sendo a mãe de Jesus) que se tornou um sujeito oculto. Mas não é uma questão gramatical, é uma questão referencial. Essa é pros amantes da Linguística Aplicada (aquela que se aplica): a definição do sujeito estará no mesmo patamar de relevância do que o ocultamento do mesmo? O que dirá o senso comum? As massas saberão dar a resposta. O povo; os “folks” de Mark Zuckerberg. Ou ainda, os raviolis de Emerson:

“As massas são conjuntamente grossas, insossas, descompostas, perniciosas em suas demandas e influência, e precisam mais do ensinamento do que do elogio. Não as desejo nada além do açoite que ensina, da escavação, da ruptura, para separá-la no um a um em que se forma em indivíduo! As massas e sua calamidade. Não as desejo, mas sim homens honestos apenas, amáveis e adoráveis, e mulheres conquistadoras também, mas sem mãos de enxada, mentes pequenas, bocas bebedoras de bebida, lazarentos de toda a sorte. Se o governo soubesse como o fazer, deveria verificar, e não multiplicar a população. Quando se chegasse à lei natural da ação, cada homem nasciturno seria reconhecido como essencial. Chega de vivas às massas, e vamos considerar dar um voto a cada homem que fala a proteger a honra e a consciência”.

O engraçado de se traduzir um texto (que não é da Maria, é do Emerson mesmo, e nem os dois patinhos na lagoa nem a Amanda Palmer têm algo a ver com isso) é que a formalidade transforma — mas no quê? O texto do século XIX poderia ser lido de muitas formas que saberiam identificar a hostilidade — contra quem? Emerson era branco, pastor, mas dizem que votou em Abraham Lincoln e se arrependeu pelo mesmo não ter se dedicado à libertação dos escravos. Isso tudo eu li na Wikipedia, é claro. Parece que o cara me soltou essa: “O sul chama a escravatura uma instituição. Eu chamo-a destituição. A emancipação é uma exigência da civilização.” Mas será que sua ojeriza às massas, naquele tempo onde ninguém andava de ônibus nem metrô, não seria uma defesa da supremacia branca? Já se nota que o homem não gosta de trabalhador, e parece esperar nobreza de uma mulher. Mas o final da citação é quase distópico, se não vivêssemos exatamente isso hoje em dia. Inclusive, quem viu CEO do Twitter (aquela cadela) defendendo que devemos aumentar a natalidade? O homem, jocosidade de lado, é sulafricano — um diamante em personalidade.

E assim chego a meu ponto central: a ideia de que pessoas fomentam narrativas parece incomodar sempre as pessoas que não conseguem desenvolver narrativas, por algum motivo. É claro, “as massas” são responsáveis por muitas manobras, culpabilizadas ou não; mas tome-se um exemplo. A operadora de telefonia Verizon comprou uma rede social da consolidada Yahoo! Alguém lembra de como isso aconteceu? Pois bem: foi um investimento baixíssimo, uma desvalorização da empresa que era talvez o melhor que se poderia esperar da internet para toda uma geração, mas como havia pornografia, isso precisava ser derrubado. Algo que veio com um levantamento, e antes a Lei Geral de Proteção de Dados. Mas há um rumor de que foi um caso isolado, onde não se soube determinar se uma pessoa sofria bullying ou se assumia uma outra identidade. Voltamos à Maria, ao Emerson, e à verificação (8 dólares na rede do animal cantarolante). A exposição à nudez e a associação aos hábitos, digamos, das massas (o que uma empresa de telefonia sabe muito bem mensurar, mas jamais revelou) à ideia de democracia não soou bem aos ouvidos de certos empresários, talvez alguns donos de cassino, gente fina. Ao contrário dos dissabores da vida real, o gosto pessoal na culinária levou a paixões e uma expressão: “take that with a grain of salt”. Já diria Jamie Oliver: “sal nunca é demais”. Mas convém dizer que Oliver está errado. O importante é saber dosar. Uma pitada de sal realmente deixa a comida mais saborosa; do contrário, não se aproveita a refeição. Se tomarmos o hábito das massas comoregra e decidirmos consumir macarronada com Coca Cola todos os dias, é provável que entremos na obesidade. O difícil, e aqui encerro minhas palavras duras, é saber que o Twitter nos alimentou com ódio a respeito principalmente de relacionamentos de outras pessoas, transformou isso em verificação de fatos importantes, maquiando fofoca com jornalismo sério, e em seguida nos ofereceu, contrastando nosso desespero e colapso emocional com a calma de um açougueiro psicopata: “toma uma aguinha com açúcar”. Nesse caso, amigos e amigas, Oliver sempre vai vencer — e nunca chegará perto de Maquiavel.

Leave a comment