Muita gente que eu conheci ao longo da vida concreta, presente, real, sabe que eu tive um relacionamento de 10 anos com uma menina, hoje mulher e mãe, chamada Olívia. Eu poderia falar muita coisa sobre ela: o olhar atencioso, os preparativos pra tudo, o senso de humor, o gosto musical, os lugares que costumávamos frequentar, como eles se transformaram, além dos círculos sociais, e contar sobre tudo o que vivemos juntos; eu e a família dela, em parte, mas principalmente nós dois, enquanto casal. Tenho uma gratidão que não me deixa abandonar a vida por ter conhecido ela. E me parece que as coisas caminharam pra lados um pouco extremos. Como eu teria passado por tantas dificuldades, e ela teria essa impressão de normalidade pairando na forma visível das redes sociais? Ela é uma pessoa reservada, mas isso é opção dela. Soube de algumas notícias, fiquei feliz, mas volta e meia tenho lembranças muito fortes dos nossos momentos, da nossa rotina, e o fato é que eu sou quem eu sou porque vivi 10 anos ao lado dela. Mas se passaram 10 outros anos desde a nossa separação. E o que foi isso?
Isso foi a transição da gota d’água pro deserto. Ela não admitiu que eu fumasse, depois de quase perder o pai para um câncer de laringe, e decidiu se afastar. Parece estranho, mas como eu postei no Facebook outro dia, o que eu fazia na internet não pareceu incomodar tanto. Leia novamente: não pareceu. Da mesma forma que, quando tivemos um relacionamento aberto, depois de 7 ou 8 anos, eu não pareci me incomodar, mas depois senti. Nos distanciamos, veio a minha demissão de um cargo e algumas histórias ficam entre nós — ou melhor, comigo mesmo. Hoje tenho 10 anos de psicoterapia, e foram raras as situações em que realmente contei o que se passava comigo, pois é um serviço da Prefeitura de Santos que aborda pessoas em vulnerabilidade social, mas a cidade é grande e os problemas também — e eu não quero misturar os meus com os de ninguém.
Na internet, tenho memórias de pessoas. Entre elas, 3 pessoas me marcaram muito: a Suzan, a Julianna e a Emma. Cada uma por seus motivos, num contexto diferente. Mas foram pessoas que me machucaram muito. Sofri com esses relacionamentos, como se sofre quando se precisa de comida e não se tem um centavo, coisa que aconteceu comigo diversas vezes. Era essencial vê-las e tocar na pele, falar olhando no olho, entre toda uma lista de coisas que disse que gostaria de fazer, e que tornou o relacionamento mais interessante, até ser tudo uma grande decepção. À distância, nos comprometemos a uma performance, seja na webcam ou nos textos que enviamos. Somos uma versão de nós mesmos que só existe na internet, e uma vez que entramos naquele personagem, esquecemos que quem somos. E a dúvida nos faz ater à peça: “como é essa pessoa na vida real?”
Nela, tenho quem me apoie. Bruno, Leandro, Marcel, Jota, Tanauan, meu pai, minha mãe, pessoas que conheci que tenho certeza que me desejam o bem e não vale a pena fazer uma lista delas, mas são dezenas, além das centenas ou milhares que tiveram momentos íntimos comigo. Entrei nesse jogo, para descobrir que lá fora é tudo muito bem regulado e organizado, mas para nós parece uma grande extravagância.
A conclusão que chego sobre relacionamentos à distância é que a promessa da internet não foi cumprida. Vivi muitas experiência boas, mas em devido momento, tudo se transformou num inferno. Não era mais a doçura, a inocência, a pureza de um contato breve mas em que se apostava tudo, que significava tanto, e que se continuava, com expectativas do próximo momento de conexão. Tudo se transformou numa grande piada, em grande parte por conta de adultos que não souberam educar seus filhos e estes se tornaram os novos “bullies”, que não admitem um relacionamento online pois só conhecem a agressão online e as molecagens, a falta de respeito, de empatia, de interesse, de paciência, de experiência. E com isso dou uma recomendação: vamos ensinar adolescentes a respeitar uns aos outros, e apresentá-los a um mundo onde as conexões não são feitas simplesmente pela aparência, mas pelos interesses e personalidade. Vamos abraçar essa ideia, que já é proposta em novas iniciativas de tecnologia. Vamos colocá-la no mainstream, e moderar as tentativas de oligopólios de controlar o processo, tornando tudo uma distopia sem escrúpulos. Assim, será possível não enlouquecer conhecendo alguém de fora, e quem sabe, manter essas pessoas nas nossas vidas.