Existe uma grande oposição entre as pessoas do mundo que enxergam as benesses de se cuidar dos relacionamentos empresariais ou ficar do lado do povo, que é constantemente explorado e tem uma condição de subsistência que muitos esquecem que apenas foi conquistada pelo movimento social. Lula, uma figura histórica, teve que assumir compromissos como ditar a política da Petrobras, nossa maior empresa, e os ricos do Brasil apontaram para itens como o destino de verbas para Educação e Saúde como falta de responsabilidade; vimos grandes empresas da alimentação, como a JBS, serem investigadas na gestão Dilma e também a construtora Odebrecht, em transmissões diárias sobre como o dinheiro estava sendo administrado, nas reportagens da Rede Globo. Hoje, o cenário mudou, e o extremismo que estava escondido por trás de uma política de costumes e conservadorismo desabrochou, revelando intolerância, violência e padrões discursivos e institucionais, além dos perigos urbanos, que defendiam nacionalismo acoplado ao “resgate” dos valores morais da família tradicional, sendo que os dados e a realidade traduziam uma sociedade em transição de valores, e todos que levantavam a voz para falar sobre o assunto eram silenciados, muito por conta do monopólio das novas empresas de mídia, controladas pelo mundo da tecnologia. Se hoje falamos em censura, é porque se foi longe demais. Mas parece que alguns (que, somados, são muitos) se recusam a avaliar a seção de comentários da internet, onde vale de tudo um pouco, mesmo com moderação em curso. Nesse interim, surge uma disputa que está a um mês de distância de uma das decisões mais importantes da geopolítica presente: a eleição presidencial americana; por aqui, lidamos com a escolha das prefeituras, e de seus não menos relevantes vereadores. Uma pesquisa hoje em dia é rápida e fácil de ser feita. O cidadão que se acostumou a pagar no caixa com o QR code consegue, e é estimulado a, pesquisar sobre candidatos que anunciam na esquina das casas. Mas muitos esquecem que o que se faz é marketing, e pouco se lembram da história que percorremos, os percalços e declarações, posicionamentos e projetos de lei que pavimentaram o caminho até aqui, e do projeto de futuro que há de se pensar sobre.
Isso tudo me faz refletir sobre a situação específica de São Paulo. Cidade com mais de 11 milhões de pessoas, tem suas desigualdades, e a minha experiência é de alguém que teve sorte. Morava em Santos, no BNH da Aparecida, e estudei em uma escola pública atrás da outra, fugindo de bullying e me adaptando ao divórcio dos meus pais. Fiquei muitos anos sem contato com minha mãe, e briguei com a minha família por querer ficar mais tempo com uma namorada que conheci aos 13 anos de idade. Muitos conhecem nossa história, entre poucas e boas. Mas nem todos sabem das dificuldades que encontramos, apesar de termos circunstâncias até que favoráveis. Como estudamos, passamos numa universidade pública. Muitos diriam: “estudar Letras? Pra quê?” E eu os chamaria de tolos. E desinformados: o que mais se precisa hoje é de professores (e não criadores de conteúdo; e daí a luta travada contra as empresas de tecnologia). Tivemos uma experiência em São Paulo que foi possível apenas pelo benefício do Serviço Social. Na USP, era o chamado COSEAS. Tivemos de provar a necessidade e vulnerabilidade das finanças. Nossos pais não informavam o que acontecia nesses termos, e apenas reunimos documentos que, nossos pais nos asseguraram, garantiriam nosso acesso aos programas de moradia e alimentação. Sem isso, não teríamos sido professores. Ela, no ano de ingresso, numa pequena escola da Barra Funda; eu, no ano seguinte, num programa de monitoria da universidade. Depois, infelizmente veio uma demissão, mas logo em seguida, ganhei a chance de ter uma entrevista com uma colega de turma, que era coordenadora pedagógica de uma grande empresa (por méritos dela, entre os quais um intercâmbio em Cambridge, o que mal poderíamos sonhar em realizar, por razões puramente financeiras). Foi uma pessoa que me ajudou muito. E percebe-se aqui que quando o rico precisa que um trabalho seja feito, o pobre tem uma oportunidade. Foram cerca de 3 anos em que os dois subiram muito na profissão; minha ex-coordenadora assumiu outro cargo administrativo, e hoje é líder de um programa de seleção de jovens talentos no Canadá; e quando voltei a Santos, desejei por muito tempo voltar a São Paulo.
Mas a São Paulo que eu conheço não é a São Paulo periférica. Até visitei São Miguel Paulista, o Tatuapé, que já é bem diferente, o próprio Butantã, que é um bairro modesto, a região da Paulista, que tem suas vantagens, Pinheiros e Vila Madalena, que são bairros privilegiados. Mas entre outras andanças por trabalho ou por turismo, conheci alguns lugares em que a dinâmica era bem diferente, e pessoas se amontoavam para pegar um trem da CPTM, todas muito insatisfeitas, provavelmente por fazerem várias viagens. Hoje, minha luta por emprego é no trabalho remoto, mas ninguém se levanta para dizer que está tudo mais difícil, a nível de competição.
O que eu gostaria de falar é que São Paulo é uma cidade que tem muitas oportunidades, mas se você não tiver certos privilégios, você vai encontrar dificuldades. A escolaridade é um privilégio. Mérito seu ou não, isso pode ser até discutido por pessoas que questionam suas habilidades, assim como todos os dias questionam as minhas; mas uma vez que o nome da instituição de ensino está no seu currículo, é um ponto a mais, e um destaque. Já se pode tentar um emprego. E construir uma vida. Subir numa empresa. Procurar, procurar, procurar. E, com sorte, achar o lugar certo. Permanecer nele é uma questão de cooperação entre muitas partes. E entender o lugar que se frequenta é essencial. Por isso, se faz necessário entender o Brasil, também. Muitas questões parecidas com as citadas no início dessa postagem passaram desapercebidas por boa parte das pessoas, entre elas a Reforma da Previdência e a Lei Geral de Proteção de Dados, ou elas se deixaram levar pelas narrativas. Hoje, se luta por um Brasil justo, crescimento econômico e oportunidades para todos e todas. Se, por algum momento, alguém que se candidate a um cargo público se esqueça, por um lado, do histórico de avanços ou retrocessos legais, sociais, institucionais, éticos, enfim, todo o amalgamado da luta política, mostrará despreparo; se, por outro, não tiver em mente a questão dos privilégios e como traduzir essa noção para as histórias de vida das pessoas que planejam seu sucesso, menor ou maior, para dar a todos e todas uma chance de prosperar em suas vidas, mostrará um certo descaso. Desejo que São Paulo tome a decisão correta na hora de escolher quem vai governar a cidade. Poderia citar 50 benefícios de se morar nessa cidade e 50 perrengues, mas creio que seria tendencioso. Até segunda.