Universidades Federais, FATECs, USP, Unicamp, ou até mesmo centros de profissionalização e escolas com um curso bacana, presencial ou online: existe uma demanda por conhecimento (knowledge, mas pode chamar de skills se não for postar no LinkedIn sobre a diferença entre os dois termos pra ganhar likezinho) e também uma pressão, enorme, sobre os jovens que estão nos anos finais do ensino médio, a respeito do seu futuro.
Antes disso, temos 9 anos de ensino fundamental (desde 2006, época em que eu estava prestes a concorrer a uma vaga na USP). Senti muitas diferenças com a abordagem do cursinho popular que eu fiz, um projeto da Politécnica da USP em parceria com a extinta escola Sedes Sapientiae em Santos, onde hoje há uma construção do grupo Mendes chamada Reserva Brasil, um prédio de luxo, no bairro da Aparecida, quase na Ponta da Praia.
Muita gente do ensino médio era incentivada a fazer também um curso técnico, e passavam tempo integral estudando. Isso aos 16, 17 anos. Como eu pulei o pré, após avaliação de alguma pessoa responsável pelo pedagógico, eu entrei na universidade ainda aos 17. E não sei se convém dizer, mas presenciei a ocupação da reitoria da USP, que saiu na capa da revista Veja São Paulo, demonizando os “baderneiros”. Eu só queria entender Aristóteles e Marcos Bagno, dois autores muito distintos em contexto e tempo histórico.
Eu sei que, em todos os anos onde passei pela a escola pública, vi muita coisa, e foram se acumulando algumas peripécias que vão desde briguinhas sobre gosto musical, estilo do cabelo, nome, aparência, e o quanto eu ficava olhando pra certas meninas. Também julgavam as pessoas com quem eu conversava. Sofri bastante bullying, ao ponto da agressão. Até que eu prestei uma prova pra uma ETEC, e fui aprovado. Foi a oportunidade de estudar com a minha namorada, que conheci aos 13 anos de idade. Já contei algumas vezes, mas nessa época, fugi de casa e fui morar com ela e a família dela. Hoje, há um gosto amargo…
Mas na USP, foram muitas experiências. E eu vejo o processo de aprendizado como um grande suplício. Se não é o seu intelecto ou capacidade de assimilação e memorização que está sendo testado, são as suas habilidades sociais, seu status, o lugar onde você senta, o caminho que você faz ao voltar pra casa, dentre incontáveis fatores. Na faculdade, há de se esperar que isso mude, mas o choque de realidade é o que me vem à cabeça. De repente, você precisa se destacar entre os melhores alunos do estado, de outros estados, e até mesmo de outros países. É muito complicado.
Mas, na verdade, a trajetória inteirinha dos estudantes é marcada pela constante pressão em navegar com traquejo as novas pressões sociais intermediadas (e possivelmente intensificadas) pelas plataformas digitais e o mundo escolar. Enquanto se debate se é o caso ou não de banir celulares nas salas de aula, também se fala em banir os jovens das redes sociais, perspectiva altamente questionável, se uma pessoa sensata e com amor no coração olhar as coisas da perspectiva do outro, e não se achar o dono da razão. Por que não debater redes sociais, assim como carreira, no currículo escolar? Seria até muito proveitoso, e extremamente prático, se utilizar da tecnologia como base para uma aula mais interessante; porém, instituições e personalidades públicas estão querendo que o jovem estude pra contribuir com o lucro das empresas, e não com a transformação da sociedade em um lugar mais justo. É algo de asqueiroso, considerando que fazem isso retirando o próprio direito à liberdade de expressão.
Nesse cenário, os jovens têm de aprender a compor redações que agradem ao senso comum, que geralmente é aquele ditado pelas grandes corporações e partidos políticos, mas se recusam a dizer que a escola é lugar de política. É raro ver uma proposta de um debate baseado em um livro, e estes são cada vez menos lidos. As escolas não têm bibliotecas, nem as cidades. Na verdade, são poucas até as livrarias, que vendem o produto (que reluto em chamar por esse nome, se tratando de conhecimento, salvo abominações de desinformação e discurso vazio). Há um interesse por fantasia e romance, mas pouco sobre história, não-ficção, biografias, jornalismo em geral (categoria que sofre ataques e se transforma diariamente em algo de insalubre), e ainda se esquecem as grandes obras literárias do cânone.
Em língua estrangeira, como o conhecimento é pouco, nada chega ao público brasileiro, e pelos dados do Cenpec, imagina-se que, se o Brasil conta com 100 milhões de leitores, devemos consultar diversas fontes para estimar o número de pessoas abrindo as páginas de obras em inglês, pois os títulos são escassos e a fluência da população é de 1%.
Para a globalização e participação da sociedade brasileira, em todos os seus segmentos, integrando-se interesses e habilidades, personalidades e toda uma série de fatores em comum, que deveriam ser explorados desde cedo, e nunca limitados, há de se ter contato com leitura de verdade. Isso vai além das músicas internacionais ou das produções audiovisuais.
Mas o fator preocupante é que o trabalho exige que estudantes estejam aptos a ingressar em novas carreiras e cumprir um bom papel levando em consideração todo o histórico escolar e de estudo. As atividades de lazer podem ser atreladas às mídias sociais, mas isso contribui para o desenvolvimento pessoal, e não a tal da “polarização”, salvo em casos onde o letramento digital parece não ter sido mencionado em nenhuma ocasião no percurso escolar. As pressões são muitas, mas se informar por diversas fontes e tentar ter contato interacional ou pela escrita, seja nos livros ou em veículos de mídia diversos, deve contribuir para um melhor entendimento tanto dos asssuntos tratados como do mundo em que vivemos, além da nossa identidade.
Para sanar os traumas da avaliação constante, convém refletir sobre o quão frequente é a avaliação do outro; ou seja, devemos incutir uma postura tolerante e civilizada aos jovens, que muitas vezes mostram faltar com paciência, por quaisquer motivos que sejam, e nós, adultos, principalmente pais e educadores, participar do processo de construção de hábitos acerca da assimilação de informação relevante, sempre com a análise crítica que não torna o consumidor de conteúdo um verdadeiro papagaio, mas sim pessoas capazes de filtrar o que há de bom e parafrasear ou comentar aspectos desse conteúdo que se associam com uma perspectiva social e particularizada, o que é um processo natural e que não deve ser cortado. Se a opinião dos jovens incomoda, que os adultos aprendam a lidar com isso, e tomem atitudes adequadas ao produzir conteúdo que possa vir a inspirá-los a fazer o bem, ao invés de radicalizá-los para o terrível caminho do preconceito, da violência e até mesmo do crime.