Muitas vezes, me pergunto sobre o propósito de dar aulas, principalmente dadas as circunstâncias para mim, onde a atuação com jovens não é possível por faltar na formação a licenciatura completa. A verdade é um pouco mais complicada do que o aparente desleixo que pessoas da minha família entenderam que tive (fato curioso, pois não vejo perguntarem da minha trajetória acadêmica em qualquer outro mérito): cursei todas as disciplinas da licenciatura, e ficaram faltando as quatro finais, que eram Metodologias do Ensino de Português e Inglês 1 e 2. Eram estágios em escolas, e tanto por questão de tempo quanto de dinheiro, não deu: estava trabalhando demais, e não havia oportunidade nem era considerada a possibilidade de diminuir a carga horária para me dedicar aos compromissos com a Faculdade de Educação da USP (sendo que mal deu para fazer isso com a de Letras).
Mas aprendi algumas coisas essenciais sobre ensino com uma mescla de lido corporativo e interesse pelos desenvolvimentos dos formatos de comunicação na internet, predominantemente jovem. Ao menos, espaços que eu tinha curiosidade de analisar, após integração, presença, troca, entendimento, e muitas amizades, me deram uma ideia muito melhor do que a mídia tradicional jamais teve a capacidade de informar sobre o mundo, e eu sabia que as pessoas que eu encontrava buscavam por informação na web, embora muitas vezes já fosse apontado um ceticismo ou mesmo aversão aos papeis da televisão e daquele papo de moral e bons costumes. Não é segredo para ninguém que modos de vida inteiros ainda hoje não chegam perto de ser abarcados pelas grandes mídias, e apesar de alguns esforços importantes, não é procurando isso que se assiste a um programa de TV ou se clica numa matéria de um grande veículo.
Eu sempre fico com a impressão de que vivo num local pouco seguro, mas desenvolvi a percepção de que boa parte da minha segurança ou falta dela tem a ver com escolhas que eu fiz para a minha vida. Não que eu tenha tido agência verdadeira em algum momento — nunca viajei para fora do país, não importa quantos contatos contabilizei ao redor do mundo, incluindo países como Malásia, Cazaquistão, Filipinas, Índia, República Tcheca, Gales, entre outros mais comentados no plano da economia mundial. Nunca foi sobre a economia, mas é visível que a presença dos Estados Unidos na internet é substancial, e com isso, a cultura também se faz uma força motora muito grande. Mas partindo do princípio que eles estão em grande número e vão pautar discussões a todo momento, o que está sendo pautado por eles?
Em muitos momentos, cheguei a pensar que assistir à TV local era um bom hábito, ao invés de dar atenção à mais nova discussão de microblogs e a alguma declaração de um político, homem de negócios ou celebridade. O ideal seria morar num lugar onde eu conhecesse as pessoas bem o suficiente para sentir que iríamos nos ajudar sempre que possível, e cada um soubesse os nomes dos filhos de todas as famílias; mas enquanto isso pode até acontecer em um nível, muito não se interfere nem se mistura, e há muita segregação — principalmente considerando-se que há uma parcela de jovens, principalmente, que parecem interagir com o ambiente urbano sem atentar às mesmas regras que eu cresci respeitando, desde dar bom dia a um vizinho que passava na rua, por mais morasse lá do outro lado da rua ou do condomínio, até falar em voz baixa, e não fazer escândalo (muito menos, diga-se de passagem, produzir sons de altos decibéis deliberadamente, como fazem os entusiastas esportivos com seus fogos de artifício).
Mas a coisa da cultura de fora ser pautada por pessoas que acabam pautando também as nossas prioridades foi tomando tal proporção que ela passou a ser rejeitada, e o meu papel enquanto professor de inglês, questionado e posto em cheque. Eu posso ter trabalhado, ou me esforçado pessoalmente, para construir pontes entre modos de vida legítimos, genuínos e até mesmo periféricos de outros países, mas isso nunca passou perto de ser bem entendido. Faltou interesse, e principalmente, aceitação. Estes dois conceitos estão sendo cada vez menos vistos, não importa a idade (a cultura das pessoas é uma, mas a tecnologia e as experiências de interação com a mídia são mais específicas, e podem moldar valores e influenciar decisões importantes na vida de cada um); e assim, criou-se um cenário onde os problemas mais concretos são ignorados, para dar lugar a disputas ideológicas de uma internet que nunca teve a pretensão de ser um ambiente para estudiosos de altos padrões éticos, metodologia definida rigorosamente, e uma bibliografia que embasasse toda e qualquer ação: o que se vê é uma banalização generalizada, e isso inclui situações de intolerância, que muitas vezes são violentas não somente no discurso, mas chegam a nós como registros reais, e a grande mídia nem se dá ao trabalho de exibir.
A violência tem muitas formas. Ela pode começar em casa — com um pai ou uma mãe que bebe demais ou usa drogas, se altera, ou não faz nada disso mas acha que a maneira correta de se educar é com controle obsessivo e punição ao invés de incentivo e apoio. Não preciso dar meu testemunho. Há situações, porém, onde tanto o discurso viola os padrões aceitáveis de civilidade e respeito para com os outros, quanto as leis permitem que se conteste, ao menos, se estamos caminhando na direção correta. Um exemplo muito claro disso é o porte de armas nos Estados Unidos, obcecado pelas pautais morais, não obstante sua imobilidade institucional sobre esta questão.
Em alguns lugares do mundo, não há recursos ou desenvolvimento de programas básicos para o funcionamento de cidades inteligentes, e pela brecha encontrada naquela localidade, às vezes vai se formando uma situação em que más práticas são veladas até que chega um ponto onde as normas são paralelas. Eu toco no assunto pois vivo numa realidade parecida: certamente, não em termos do desenvolvimento da cidade onde moro, mas sim das expectativas da margem, da massa dos desempregados, dos sem estudo, dos que não têm oportunidades e se negam a procurá-las (e mesmo a existência do projeto que toco é algo que ninguém nunca divulgou, apenas zombou repetidamente como um grande símbolo de falta de seriedade). A violência chegou aqui há muito. Chegou nos tempos de Cabral, e através da colonização, da catequização e da escravatura, se perpetuou. Há argumentos importantes aqui: uma ideologia imposta compõe uma situação de violência. E mesmo se tratando de religião, na verdade foram apagados os valores dos povos originários, o que incontáveis professores já levantaram e a maioria dos alunos e alunas não entendeu. O que falta para que a mensagem seja assimilada — ou melhor, os fatos?
Será que o caminho é mostrar conflitos da época escolar na internet para que o jovem deixe seu like e forme a sua bolha de comunicação, a fim de estabelecer com as plataformas tecnológicas um subcontrato, onde o bem-estar e a confirmação de que se pode pensar de determinada forma e legitimação do discurso e da experiência vivida sejam transformadas em pequenas ações analisadas por sistemas autônomos de empresas privadas estrangeiras? Ou será que o nosso atual presidente tem razão, ao contrário do que uma parcela não muito pequena da população nacional pensa a respeito do debate a respeito da soberania nacional?
Será que ainda somos capazes, globalmente, de ter interesse em outros modos de vida, sem o cinismo e a pretensão, ambos traços tóxicos, de se achar que o nosso conjunto de valores é mais acertado, e de qualquer forma, é o único que vale a pena dar atenção? Desde quando fez sentido que o mundo está conectado globalmente, mas os interesses não se misturam, e isso não pode ser feito em um processo natural? Se uma coisa é certa, é que as pessoas não desejam mais violência. Mas temos dúvidas a respeito disso, um princípio que deveria ser amplamente afirmado e defendido, pacífico, aberto ao diálogo, permeado pela curiosidade, o entendimento mútuo e a aceitação; mas tanto nas conversas triviais e nos comentários perdidos, quanto nas declarações de líderes mundiais, vemos beligerância e condenação de povos inteiros.
Talvez precisemos de uma renovação política. Algumas coisas, no passado, foram tomadas e conquistadas à força. Ficou uma marca, e cada um tem sua história para contar e eventos associados, assim como a memória, os sentimentos, a ideologia que se cristalizou. Mas o papel da educação, mais do que estudar a forma como nos comunicamos, deve ser em solucionar conflitos, o que fica evidente para toda pessoa que lida com 40 alunos numa sala de aula, na rede pública. E talvez sabendo disso, a minha família tenha razão em apontar uma falha crucial. Mas sem contexto, não se chega a nenhum entendimento. Apontar erros é fácil. Ter empatia deveria ser, mas vivemos no culto ao ego e à competição, promovido descaradamente há muitos anos pela mídia, pela sociedade antes dela, no tempo de reis e rainhas, que mal se deixou de lado, em alguns países. Para que a simbologia das comunicações não seja violenta, convém olhar para os atos de violência e fazer reparos aos danos. Isso inclui nomear quem violentou. E isso, ninguém quer fazer.